sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Meu avô.

1980! Meu pai estacionou a Brasília verde abacate em frente à casa de meus avós. Eu decidi não entrar: - "Vou ficar ouvindo radio". Vi em minha mãe um olhar de reprovação. Meu avô sempre foi orgulhoso, sempre teve seu dinheiro e sempre trabalhou. A primeira memória que tenho dele foi algo inesquecível: - "Dá um soco! Com força! Bem aqui no meu peito!". É claro que soquei com toda minha força de um menino de cinco anos. Riu da cara que fiz, tirou uma nota de sua carteira e me deu. O valor era alto, não ficou muito tempo em minhas mãos, um dos adultos a tirou.



Quando ele nos visitava sempre trazia algo para comer ou um garrafão de vinho e sempre achava uma pausa na conversa dos adultos para brincar com as crianças. Quando íamos almoçar na casa dele, era uma festa, tomávamos água misturada com vinho doce, carne assada, macarrão e depois do almoço, íamos procurar uma árvore para fazer um balanço. Foi caminhoneiro! Minha mãe conta que subia na carreta e escolhia os livros que eram transportados para uma empresa de reciclagem e dessa forma ela conheceu a literatura que transmitiu a todos seus filhos.



Depois de aposentado, trabalhou em uma banca de jornal na Avenida São João. Ele me deu algumas revistas em quadrinhos e o inicio da adolescência nos separou. Queria ter outras memórias dele: tomar cerveja em um quintal ou bar ou ter dirigido seu caminhão e rir, rir muito com ele.

Como já descrevi, ele era orgulhoso, tipo de homem que não gosta da passar no médico. Tinha um calo, não lembro em qual pé e este pequeno machucado foi sua tragédia física. Impossibilitou de andar. Ficou preso em sua cama ou em uma cama do Hospital Alvorada! Eu não participei. Pelo que eu ouvi falar, ele já doente, gostava de reunir os netos e tomar um café da tarde com queijo, pão e presunto A notícia chegou, sua perna teria que ser amputada, minha mãe já procurava uma cadeira de rodas. Pedro Cabral, um dia antes da operação resolveu que não lhe cortariam a perna e se foi inteiro e orgulhoso.



Sabe, eu ter ficado naquela Brasília foi um dos piores erros de minha vida. Não queria ver meu avô naquele estado, nem suas fraquezas. Acho que tudo isso são desculpas por ter perdido a chance de vê-lo pela última vez!

Um comentário:

  1. parabéns para este homem guerreiro que foi seu avô ! eu tbm no lugar dele não permitiria que me amputasse a perna ,e com toda certeza iria embora deste mundo inteira assim como vim .parabéns pela garra deste homem .

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