terça-feira, 1 de novembro de 2016

Olha o gás

Foi meu primeiro emprego com carteira assinada. Era em empresa que revendia botijão de gás. Era ajudante de caminhão, entregava em bares. Naquele tempo era permitido a venda em bares. Entregava à domicílio de caminhão ou numa bicicleta.

Naquele tempo não tinha musica ou alto-falante, tinha que ser no grito mesmo, caminhando na frente e gritando: - "olha o gás", e o caminhão logo atrás. Minha dicção era horrível e à maioria das pessoas entendiam:  -"Olllgaaaa". 


Em uma venda lá no Parque Santo Antonio, em um tipo de condomínio subi o primeiro lance de escadas e nada do cliente. Subi o segundo e nada do cliente, o terceiro e só no quarto andar que consegui deixar o botijão cheio e descer com o vazio.

No mesmo dia tive que subir uma ladeira, pequeno caminho de terra com mato dos dois lados. Não havia nenhuma dificuldade até a cliente soltar o botijão vazio ladeira a baixo. Tive que jogar o botijão cheio no mato e pular o vazio.

A cada dia da semana íamos a um bairro diferente, primeiras horas de trabalho eram as melhores, trocávamos os botijões e nas cozinhas sempre tinha uma mocinha tomando seu café. Eu trocava o botijão e às vezes rolava uma paquera.

Tudo isso acabou quando passei a fazer entregas de bicicleta lá no bairro São João. As meninas tomando café eram raras, entregava um botijão e quando voltava já tinham outros dois ou três para ser entregues. Era rápido com a bicicleta. A minha dificuldade era com os nomes das ruas.

Certa vez quando cheguei de uma entrega e o rapaz que anotava os pedidos me passou outro, perguntei a ele: - "Onde fica esta rua?", e ele respondeu: - "Na mesma rua que você acabou de entregar".


Outro fato que vale a pena relatar foi quando transportava dois botijões na bicicleta, um atrás e outro na frente, ali no bairro Jardim Jacinto. Cortei caminho por uma viela de paralelepípedos e, de repente ouvi ou barulho. Reduzi a velocidade da minha bicicleta e o botijão que estava na garupa me ultrapassou e chocou-se com um muro ali próximo.

Meu último dia foi um dos mais interessantes. Tinha jogo da copa, Brasil x França. Logo de manhã apareceu um senhor encomendando um botijão e o endereço era "Travessa da Avenida Santa Helena, número alguma coisa". Atravessei toda Avenida Santa Helena e entrei na travessa, e nada do número alguma coisa. Voltei com o botijão. O senhor apareceu e confirmou o endereço e, novamente cheguei lá e nada do número tal. O senhorzinho voltou na revenda e xingou todos. Para minha sorte eu estava fazendo outra entrega e, pela terceira vez, montei em minha bicicleta e fui enfrentar a Avenida Santa Helena. Naquele tempo não tinha muito trânsito. Na contra mão, quando contornei um caminhão estacionado, do nada apareceu um japonês de motocicleta. Foi pneu contra pneu... Não sei o tamanho do impacto, só sei que a roda da bicicleta que diziam ser de aço virou um oito e o botijão foi parar nas coxas do japonês. Acredito que o pobre motoqueiro não tinha carta de motorista, me disse algumas palavras que não posso escrever nessa crônica e sumiu. Coloquei o botijão na bicicleta e fui empurrando a até a tal Travessa. Descobri que existia a Travessa da Travessa da Avenida Santa Helena. O senhor também me disse algumas palavras que não posso escrever aqui. Peguei o botijão vazio, o cheio já estava pago. Deixei a bicicleta para consertar e, com o botijão nas costas voltei para o depósito. Pedi demissão e fui ver o Brasil perder para a França.


Pedro Paiva – 
Email: pedroalmox@hotmail.com

Um comentário:

  1. Muito interessante e divertida sua história Pedro, parabéns. Se não puder falar-lhe novamente, tenha uma boa vida..

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