sábado, 5 de novembro de 2016

A Ponte

Naquele tempo eu trabalhava em um hotel ali perto do Parque dos Eucaliptos. Fechei o turno daquela noite e tomei caminho do meu lar e para economizar, fui a pé. Muitos diziam que aquele caminho era perigoso, devido o horário. Meia noite na escura rua dos fundos do Mercado Municipal e depois a Rua Carlos Porto, passando pela Igreja Matriz e pela ponte Nossa Senhora Conceição. E, é nessa ponte que tudo se passou!

Eu trajava o uniforme do hotel, sapato, calça, e camisa social com o logotipo e uma blusa de linho preta com detalhes amarelos, era a que mais gostava.

Mais ou menos no meio da ponte eu a vi, era uma menina, no máximo vinte anos, pele negra e um corpo muito robusto. Chorava dizendo palavras que me fogem da lembrança, e o nome de um rapaz. Sorrindo falei: -“Não faça besteira!”. Andei alguns metros e em minha cabeça veio à mensagem: -“Ela vai fazer besteira...”

Voltei tentei argumentar, o efeito foi contrário. Ela se movimentou em direção ao parapeito da ponte. A segurei, era muito forte e com dificuldade consegui conte-la. Idiotas em seus carros buzinavam e gritavam: - “PULA!”. Alguns dos pedestres atravessavam para outro lado para não se envolver.

Na humanidade existe diversidade, diversidade de caráter. Foram duas moças que chegaram, uma se prontificou a ligar para a policia e a outra se aproximou e disse que a conhecia e moravam no mesmo bairro. De bicicleta, chegou mais ajuda. Um rapaz trajando uniforme de vigilante. Ele a segurou e naquele momento me veio um alivio, tirei o celular do bolso e liguei para a policia: - “Já está a caminho...”, foi o que a telefonista me disse.

Foi neste momento que eu vi correndo em minha direção e o vigilante noturno atrás. Minha calma acabou-se, coloquei o corpo na frente dela e a segurei no tranco. Tentou se debater, me xingou de vários palavrões, lutou e o vigilante a segurou também.
Finalmente a policia chegou e um dos policiais nos disse: -“Vocês salvaram uma vida!”. Ela entrou na viatura e todos tomaram seus caminhos.

Quando cheguei em casa tirei minha blusa de linho e notei que estava toda marcada de tinta amarela. O parapeito da ponte tinha sido pintado naquele dia.


Pedro Paiva – 

Email: pedroalmox@hotmail.com



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