sábado, 18 de março de 2017

O Ribeirinho!

Eu era criança. Pela primeira vez ia com meu irmão e meus primos jogar bola. Caminhávamos em meio a risadas e conversas fiadas ali no inicio da Avenida Senador Joaquim Miguel, quando eu o encontrei pela primeira vez e um dos meus primos gritou: - “TINGUERA”. Eu não vou mentir, também gritei e como dizíamos antigamente, “saímos no pinote“, e na correria deu tempo de   olhar para trás, ele se movia em uma velocidade absurda para quem usava uma bengala no lugar de uma das pernas. Não foram uma ou duas vezes que cometi este pecado com aquele senhor.
Na adolescência deixei essas brincadeiras com o pobre violeiro. Sempre que caminhava pela cidade encontrava esse homem na frente das “Casas Bahia” ou em um banco da antiga ferrovia. Às vezes me cumprimentava, às vezes não. Caminhava em linha reta e para abrir passagem na multidão batia duas vezes sua bengala no chão. E nas ruas existiam aqueles de pouca sabedoria que mexiam com ele, não eram criativos: - “pirata”, - “tatu” e o mais conhecido: - “TINGUERA”. A resposta era simples: - “É A MÃE”
Havia muitos casos sobre ele. O mais conhecido era aquele dos dois amigos em que um era morador de Jacareí e outro não, e aquele que morava na cidade apontava para uma pessoa qualquer e dizia: - “Chama aquele cara de Tatu”, e o outro chamava e nosso amigo  Justino (era este o nome do violeiro), que estava sentado logo atrás, vinha com sua muleta e acertava a cabeça do forasteiro.
Hoje vemos vários artistas de rua lutando pelo seu “ganha pão”. São estatuas humanas, tocadores de trombone, músicos tocando nas praças nas épocas de festa, eu mesmo fiz algumas exposições poéticas. Seu Justino tocava porque gostava e não ganhava nada, foi o primeiro e mais conhecido artista das ruas de Jacareí.


Quando casei fui morar lá no Bairro do Campo Grande. E todo dia quando voltava do serviço passava em frente da casa dele de apenas um cômodo. Seu Justino levantava a mão e dizia: - “Boa Tarrrrrdiiii”, do jeito mais caipira possível! Ele sempre respeitou a mim, minha esposa e filhos. Alguns que passavam pela rua, ele xingava com os piores palavrões.
Certa vez em um sábado ou domingo quando eu descia o morro da Rua Resende ele me chamou, me mostrou artigos de jornal do tempo que ele tocava nas rádios e bailes, como “O Ribeirinho”. Era assim que gostava de ser chamado, conversamos durante quase uma hora e conheci o ser humano por trás do personagem.
Por motivos pessoais, me mudei do Campo Grande e quando voltei para visitar minha comadre, ele já estava no Asilo. Voltei ao Campo Grande várias vezes, e um dia a resposta foi outra.
No bairro em que ele morava, muitos contam que escutam o som oco de sua muleta a passar. Mas tenho certeza que se o Ribeirinho voltasse seria para tocar caipiramente sua mágica viola!






4 comentários:

  1. Lembro sempre, de maneira saudosa, dessa figura ímpar, um ícone da história de Jacareí!!

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    1. linda Homenagem ! vc relatou aqui fatos reais que eu tbm vivi e vi muito.infelizmente este artista não teve o respeito merecido pelo povo de Jacarei.hoje tentaram fazer até um livro mentiroso ,historinha em quadrinho ,mas nada que condiz com a verdade .já o que vc relatou aqui Pedro Paiva é a mais pura verdade .parebénas pela sinceridade e respeito.

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  2. Olá!
    Falo em nome do Jacareí Shopping, você pode nos enviar uma mensagem na nossa página do Facebook -> www.facebook.com/jacareishopping/
    Gostaríamos de conhecer melhor autores da nossa cidade para que possamos trabalhar juntos!
    Agradeço a atenção!

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